quinta-feira, 28 de abril de 2011

Empreendedor? Quem?

“Qualquer indivíduo que tenha à frente uma decisão a tomar pode aprender a ser um empreendedor e se comportar empreendedorialmente. O empreendimento é um comportamento, e não um traço de personalidade…” Peter Drucker

A decisão de criar uma empresa, principalmente neste início de século, é de importância vital para a nossa sociedade pois envolve geração de bens e serviços destinados a satisfazer as necessidades de uma população crescente e cada vez mais exigente. Há por trás do “satisfazer as necessidades” um desafio muito grande e superá-lo requer acções decisivas de empreendedores dispostos a criar empresas. Cientes dessa necessidade e desafio, muitos países têm implementado programas de apoio aos empreendedores como parte da estratégia de desenvolvimento.

Segundo Fillion, empreendedor é a pessoa que imagina, desenvolve e realiza visões. O empreendedorismo se constitui em um conjunto de comportamentos e hábitos que podem ser adquiridos, praticados e reforçados nos indivíduos, ao submetê-los a um programa de capacitação adequado de forma a torná-los capazes de gerir e aproveitar oportunidades, melhorar processos e inventar negócios.

Empreendedores são pessoas que não desistem de seus objectivos de transformar simples ideias e sonhos em realidade. Para tanto, e como condição necessária para o sucesso é-lhe requerido um conjunto de aptidões (analíticas, cognitivas, comportamentais etc). Não é comum um indivíduo apresentar todo o perfil exigido para se tornar um empreendedor de sucesso. Neste sentido é que se justifica programas de capacitação para aumentar as suas chances de sucesso como empreendedor.

A arte de empreender deixou de ser considerada um dom e hoje o empreendedorismo é uma disciplina que consta no programa de vários cursos e em praticamente todos os níveis de ensino.

O empreendedorismo tem despontado como o novo paradigma da administração. Embora sendo um termo muito utilizado na mídia, o empreendedorismo ainda é pouco conhecido pela grande maioria da população e mesmo muitas pessoas “cultas” têm associado o empreendedorismo apenas a “abertura de empresas”. Essa visão reducionista de um tema tão importante para o País tem condicionado o seu desenvolvimento e percepção do seu real significado e permitir políticas adequadas ao seu desenvolvimento no País. Geralmente, concentra-se a atenção nos aspectos formais, ligados à capacitação nas técnicas de planeamento (plano de negócios) e questões de abertura de empresa, relegando para segundo plano os aspectos mais importantes, ligados ao “comportamento”, hábitos, atitudes e valores - que faz parte da verdadeira essência - do empreendedor. O descaso com esses aspectos informais dificulta a percepção de grande parte de problemas que condicionam o desenvolvimento empresarial nacional.

Um aspecto chave em relação às características dos empreendedores é a necessidade de autonomia, independência, autoconfiança, inovação e criatividade.
Actualmente, com o aciramento da concorrência  em termos mundiais, o aspecto mais determinante para o sucesso e sobrevivência de empresas é a criatividade e a busca persistente por inovação. A criatividade permite solucionar problemas e também aumenta a competitividade.

A capacidade criativa geralmente é determinada na infância. A liberdade de expressão é um factor importante na formação de crianças criativas, persistentes, comprometidas com suas metas e com auto-confiança. Aspectos esses que são imprescindíveis para o sucesso na vida e nos empreendimentos.


Sobreviver neste mundo cada vez mais globalizado e competitivo requer pessoas criativas, inovadoras com capacidade de escapar de ideias convencionais. Como por exemplo, pode-se citar o relativo sucesso e criatividade que o país apresenta na música. Provavelmente não teria alcançado tanto sucesso se todos os artistas fossem obrigados e se expressarem de uma forma diga-se, “convencional”. O país precisa urgentemente de crianças, jovens e adultos criativos, autoconfiantes, persistentes enfim, empreendedores e para tanto devemos ser capazes de permitir a liberdade de expressão tão logo possível e o governo não pode prescindir de adoptar qualquer instituição (norma, regras, etc,) que permite alcançar esse objectivo. Pelo facto de que mais do que uma reivindicação de muitos, é uma condição necessária para a sobrevivência e sustentabilidade do País.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Infra-estruturas e desenvolvimento económico

É inquestionável que determinadas infra-estruturas são imprescindíveis para o processo de desenvolvimento do país mas, deve-se ter em consideração que nem todas as infra-estruturas apresentam a capacidade de promover o desenvolvimento económico e, por vezes, podem até ser prejudiciais ao processo de desenvolvimento económico, sem uma contrapartida em termos de melhoria da nossa competitividade, aumentar as nossas receitas de exportações ou melhorar a produtividade das nossas empresas.

Em situações de recessão económica é comum dar prioridade aos investimentos em infra-estruturas. Essa escolha geralmente esta associada ao facto de que o investimento nas infra-estruturas tem um elevado efeito multiplicador na economia, isto é, gera externalidades positiva; gera efeitos de encadeamento tanto a jusante (backward linkages) como a montante (forward linkages) na economia; promove o efeito “crowding in” (em que, com a redução de custos as empresas investem mais); melhorias na produtividade; melhoria nas taxas de retorno dos investimentos; redução de custos, melhorias na competitividade do país etc.
Em estratégias de desenvolvimento, entretanto, a priorização do investimento em infra-estruturas pode não ser a mais adequada de acordo com diversos autores (por ex: A. O. Hirschman) que defendem que a infra-estrutura “permite” mas não “determina”o desenvolvimento económico.

O investimento em infra-estrutura tem sido uma estratégia eficiente de redução da pobreza pelo facto de que melhora a acessibilidade das localidades, desenvolve os mercados e dinamiza a economia gerando oportunidades de emprego e rendimento para várias famílias. Entretanto, as infra-estruturas não devem ser vistos como um fim em si mesmo mas sim devem ser um meio para melhoria da nossa competitividade, aumento das nossas receitas de exportações e garantir melhorias na qualidade de vida da população. É nessa relação que se assenta a virtude do investimento em infra-estruturas ao contrário do que se verifica em alguns países que fazem elevados investimentos em infra-estruturas “modernas” porém com limitada capacidade de melhorar a competitividade e a produtividade do país.

Deve-se sempre ter em consideração que o dinheiro é escasso e caro. Neste sentido qualquer investimento do governo, empresas ou famílias deve ser analisado segundo a óptica da escassez e do custo de oportunidade (o que se deixa de obter com cada escolha), princípios elementares da economia. Segundo Charles Handy, no livro A Era da Incerteza, “As sociedades, segundo a história, têm sempre sido recordadas pela forma como gastaram o seu dinheiro, não pela forma como o ganharam.”

O limitado efeito multiplicador de determinados investimentos em infra-estruturas tem sido um entrave significativo no processo de desenvolvimento de diversos países e frequentemente pode ser observado pela deficiente racionalidade económica na escolha entre as alternativas de infra-estruturas e concentração dos investimentos nas infra-estruturas com pouca ou nenhuma ligação com a melhoria da competitividade e capacidade de exportação desses países. Muitos “investimentos” em infra-estrutura nem deveriam ter saído do papel, se passassem pela análise da elementar racionalidade económica.

Em países ainda sub-desenvolvidos, ou melhor, não industrializados o investimento em infra-estruturas pode muitas vezes apresentar um impacto negativo na balança de pagamentos pelo facto de que geralmente os investimentos em infra-estruturas serem financiados com recursos de terceiros (acarretando prestações dos juros, reembolso de empréstimos); na balança comercial (importação de quase todas as matérias primas para a realização dos investimentos); na balança de rendimentos (remessas de lucros com serviços prestados por empresas estrangeiras etc) e, juntamente com os elevados custos de manutenção dessas infra-estruturas acabam por drenarem os escassos recursos nacionais, sem uma correspondente contrapartida em receitas (e não raras vezes acabam por serem financiadas pelas famílias, através de taxas, impostos etc).

Estas perdas de divisas devem ser contrabalanceadas pelas receitas geradas pelos investimentos isto é, o investimento em infra-estrutura apenas será economicamente racional e viável se o fluxo de benefícios proporcionados pela infra-estrutura superar o fluxo de custos que a ela estão relacionados.

Fazendo parte de um mundo globalizado, a melhoria da competitividade é questão de sobrevivência e melhoria das condições de vida da população. O investimento em infra-estrutura é um meio propício para alcançar maior competitividade do país e permitir uma inserção dinâmica “activa” no mercado globalizado neste contexto a análise de investimento nas infra-estruturas deve ser feito no âmbito de uma estratégia de longo prazo e é uma etapa imprescindível para garantir a sustentabilidade do crescimento do País.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Educação financeira e racionalidade económica

Toda a moderna teoria económica está assente na capacidade de auto-regulação e perfeição do sistema de mercado e no princípio da racionalidade dos agentes económicos. Não precisamos fazer muito esforço para deixar evidente o facto de que existem falhas no sistema de mercado e muitas pessoas apresentam limitada racionalidade. O aspecto preocupante é que essa situação é mais regra do que excepção.

A existência de falhas de mercado relacionadas com a racionalidade limitada dos agentes económicos, informação incompleta, externalidades, assimetria de informação e estruturas de mercado de concorrência imperfeita, geralmente associadas a poder de mercado - que é a capacidade de empresas influenciarem a quantidade ou o preço dos produtos, tem justificado a necessidade de regulação económica como forma de alcançar maior eficiência nos mercados.

A habilidade financeira, nos dias de hoje, é uma competência que precisa ser melhorada para que os cidadãos comuns não sejam vítima do sistema perverso e muitas vezes pouco ético que se progride com a desgraça dos incautos e menos dotado de conhecimento sobre finanças (informação incompleta e assimetria de informação).

A racionalidade limitada, a informação imperfeita, influência das técnicas de vendas modernas, marketing e facilidades de crédito pode levar a decisões pouco racionais ou ineficientes na afectação de recursos, gerando externalidades negativas e ineficiências no mercado. Frequentemente, os consumidores ditos “livres” e soberanos mas ignorantes em termos financeiro devido á racionalidade limitada e informação incompleta são levados a um nível de endividamento insustentável, carecendo de maior regulação no mercado de crédito no sentido de proteger a economia e permitir um equilíbrio mais eficiente.

A pouca inteligência financeira e limitada racionalidade tem padronizado o investimento das famílias á imitação das opções dos vizinhos sem uma análise financeira e intertemporal. Essa situação é nitidamente uma situação característica da “falha de mercado”, no sentido de que as opções individuais estão de certa forma condicionadas pela escolha dos vizinhos. Uma espécie de externalidade que pode ser negativa caso a escolha de investimento, ao seguir a maioria, lhe deixar mais pobre.

Muitas pessoas, motivadas por objectivos não-económicos tais como a vaidade, acabam por fazer escolhas pobres na selecção dos investimentos, dificultando o alcance de um melhor desempenho da economia. Esta situação não é desejável porque se trata nitidamente de uma situação sub-ótima e requer mecanismos e incentivos para levar a economia a uma situação melhor (ver a ideia do paternalismo libertário, contra, contra, outro texto sobre o assunto).

O homo economicus, dotado de racionalidade económica, procura acumular capital. Essa é a sua essência - como defendido por Adam Smith - e nesta base ele contribui para o progresso da sociedade capitalista. Entretanto, não é em todas as sociedades que os indivíduos demonstram ser homo economicus, limitando o desempenho da nação como todo ao concentrarem os investimentos em bens de consumo (muitas vezes de luxo e importado) em vez de promoverem a acumulação de capital que origina emprego e crescimento económico.

A crise financeira que tem assolado o mundo recentemente alertou para a necessidade de maior regulação nos mercados financeiros e da disponibilidade de maiores informações para dar suporte às decisões dos agentes económicos. Neste contexto a participação e liderança do estado é fundamental, principalmente no estabelecimento de instituições que possam moldar o comportamento racional dos indivíduos antes guiados pela vaidade, ostentação e o consumismo. Somente desta forma poderemos garantir maior eficiência do mercado e permitir crescimento económico saudável, com acumulação de capital.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Racionalidade da Bolsa

Achei interessante e resolvi partilhar...

O efeito contagio da crise Portuguesa em Cabo Verde

Esta notícia é preocupante para a nossa economia principalmente numa altura em que ainda persiste os efeitos da crise financeira em todo o mundo, que se caracteriza por uma onda de incerteza e desconfiança em relação à economia e num contexto em que os investidores buscam alternativas mais seguras de investimento. Essa preocupação vem do facto de estar a aumentar o diferencial dos juros pagos pelo governo de Cabo Verde para as Obrigações do Tesouro (cerca de 4%) e os juros oferecidos pelo governo de Portugal (actualmente a 10%). A remuneração das Obrigações das empresas privadas na Bolsa de Cabo Verde de cerca de 6,5% está longe dos mais de 9% ou 10% oferecidos pelo Estado Português. Esse diferencial nos juros, num ambiente de abertura económica e livre mobilidade do capital como ocorre no nosso País, pode levar a uma fuga de divisas. De facto, sendo que a banca no País é detida maioritariamente por instituições portuguesas, provavelmente será óptima oportunidade para ela (e não só) investir nos Títulos de dívida soberana do estado Português que além de pagar mais, tem maiores garantias de cumprimento. Essa situação pode levar a uma escassez de crédito no nosso mercado e dificuldades agravada ao nosso sector privado, já “privado” do crédito.
Nota-se que mesmo nas operações de crédito de longo prazo, no País, os juros actuais na média de 10% podem deixar de ser atractivos para a banca privada. Actualmente, devido à crise que se verifica no mundo todo, os demais países tem saído à cata de dinheiro e competindo connosco em termos de captação de divisas. Pelo facto de serem países que além de estarem a oferecer juros menores, tem melhor rating de cumprimento que nós podem estar em vantagens, requerendo que as nossas estratégias de competição sejam mais agressivas.
Além do apelo patriótico de ajudar o País (Portugal) que actualmente passa por dificuldades, a situação é uma boa oportunidade de negócios para varias empresas portuguesas e infelizmente, para nós, pode traduzir numa maior restrição ao crédito pelo facto de que como citado anteriormente, toda a banca nacional é dominada por empresas portuguesas e na ausência de politicas monetárias restritivas, de controle de capital ou aumento nas taxas de juros a possibilidade de fuga de capital torna-se real.
O aumento das taxas de juros pagas pelo governo Português pode inclusive desviar nossos potenciais IDE - Investimento Directo Externo. Sendo uma alternativa segura de investimento vários investidores podem optar por comprar os títulos da divida pública Portuguesa em vez de se arriscar em investimentos produtivos em Cabo Verde.
Neste contexto, a crise no nosso maior parceiro comercial traz perspectivas pouco animadoras para o País que entretanto, deve lançar mão de políticas económicas coerentes com a actual conjuntura pelo facto de que o risco de termos de pagar uma factura muito elevada é real.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A Balança de Transacções Correntes e a sustentabilidade do crescimento económico

Embora não sendo muito comentada, acredito que pouca gente duvida que a nossa vulnerabilidade externa tem aumentado de forma evidente e persistente sem que ninguém aborde a questão. Sendo uma das variáveis macroeconómicas essenciais para aferir sobre a sustentabilidade do País no longo prazo estranha o facto de que os indicadores relativos ao comércio externo terem pouco destaque na midia e nas politicas públicas do governo.
A Balança de Transacções Correntes faz parte da Balança de Pagamentos e regista as importações e exportações de bens e serviços do País e regista também as transferências unilaterais e a balança de rendimentos. Deficits na balança de Transacções Correntes podem não ser preocupantes no curto prazo entretanto, ao se tornarem crónicos será um dos principais desafios que as economias terão de vencer caso pretendem sobreviver no longo prazo. A história económica está repleta de caso de problemas que surgem na economia devido a deficit na Balança de Pagamentos (ver exemplo da crise no México, Tailândia e recentemente com Portugal e outros).
Encontrei um texto na internet que ressalta a preocupação dos deficits na conta corrente e lembrei de abordar este tema neste post. Essa é apenas uma parte do texto “…Enquanto os défices correntes na Irlanda e, em menor grau, na Espanha, caíram no último ano para níveis mais sustentáveis, no caso de Portugal e da Grécia permanecem "excessivamente altos", respetivamente em 10,4 por cento e 9,9 por centoque pode ser encontrado aqui.  A nossa Balança de Transacções Correntes tem apresentado deficits consecutivos desde 1988 e a tendência é de piorar cerca de 0,5 pontos percentuais chegando ao valor absurdo de mais de 15% do PIB (os dados podem ser obtidos aqui) estimado pelo FMI em período recente da nossa economia. Essa situação é preocupante e limita de certa forma a sustentabilidade do País no longo prazo.

Em um artigo interessante do economista chefe do FMI (Olivier Blanchard), sugere aqui que o deficit em transacções correntes é imprudente e insustentável e que, geralmente, esta relacionado a distorções internas do País necessitando de medidas adequadas para ser balanceada.
Realmente, o deficit na balança corrente esta associado ao sector privado nacional e é um indicador da competitividade do País.
Da mesma forma que uma empresa não pode permanecer com deficit consecutivos no seu balanço anual, os Países também estão sujeitos aos mesmos princípios. Tendo em consideração a nossa situação e perspectiva de futuro devemos dar maior atenção à nossa conta corrente da balança de pagamentos e neste contexto a exportação deve ser o principal foco das políticas económicas se quisermos aumentar as nossas chances de garantir o crescimento económico no futuro sem agravar o deficit e entrar na “armadilha da dívida”.
Acho que é evidente a necessidade de ponderarmos sobre a nossa sustentabilidade económica e começar a combater o deficit na conta corrente da Balança de Pagamentos e para tanto temos poucas alternativas de políticas económicas. O caminho mais saudável será sem dúvida o incentivo à exportação de bens e serviços.  É uma medida imprescindível tanto pelo facto de que o nosso deficit tem aumentado como também pelo facto de que o nosso maior parceiro comercial (Portugal) estar a passar por sérios problemas e ter aumentado as taxas de juros o que por sua vez pode levar a fuga de capital. Quanto a essa possível “fuga de capital” merece uma análise no próximo post.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Jornalismo económico responsável e crítica

Um dos pilares do estado de direito é a existência de imprensa democrática. A desigualdade em termos de acesso à informação caracteriza uma imperfeição de mercado que dificulta a eficiência na tomada de decisões dos agentes económicos e implica numa afectação sub-optima dos recursos, limitando consideravelmente o potencial de desenvolvimento de países.

No mundo de hoje, de mudanças rápidas e continuas a capacidade de identificar os problemas existentes e de investigar por soluções originais e criativas marca a diferença entre ganhadores e perdedores.O acesso à informação é uma condição necessária para o sucesso de qualquer organização pelo facto de reduzir as incertezas, facilitar a tomada de decisões e melhorar a eficiência dos mercados. O Jornalismo económico permite aumentar a disponibilidade de informação e diminuir a assimetria de informação, melhorando o ambiente competitivo com benefícios para toda a sociedade.

Entretanto, de nada adianta a maior disponibilidade de informação se os leitores não tem capacidade de analisar e discutir inteligente e racionalmente a opinião dos jornalistas. Na ausência de capacidade critica e discernimento por parte dos leitores a opinião fundamentada no “achismo”, preconceitos ideológicos e/ou partidarios e com propósitos de doutrinação vira informação. Neste caso, ao invés da midia “libertar” os leitores, nota-se autênticos “agarados” ideológicos, intolerantes e com limitada capacidade de participar em um espaço de debate sem atacar, ridicularizar, desrespeitar, humiliar e apontar defeitos da pessoa que ousar contrariar a sua crença, numa logica de que “tudo vale”, mesmo a violação de normas.

Na falta de argumentos, muitos jornalistas económicos recorrem a chavões, termos técnicos (economês), vocabulário exótico, persuassão, recursos retóricos entre outros instrumentos de terrorismo intelectual, que acabam por virar fetiche.

Geralmente, a midia controla as informações a serem repassadas ao publico e esse monopólio se configura como um atentado ao estado de direito mesmo sob o manto do argumento de “imprensa livre”. Mais essencial do que a pretensa liberdade de imprensa é a imparcialidade e “imprensa democratica”.

Importante também é o estabelecimento de mecanismos que garantem o cumprimento das normas e regras de conduta estabelecidas para evitar a situação de anomia social e estado de barbárie - que é o retrocesso do estado de direito para o estado de natureza -onde valores sociais e institucionais se deterioram, onde acontece a proliferação de ataques á honra, dignidade e integridade de pessoas, sem que haja punição.

A informação é um bem publico, influencia o comportamento e decisões na sociedade, estimula a cidadania, participação e espirito de pertença. A regulação da midia é importante e pode ser um instrumento eficaz na edificação do estado de direito, reforço da nossa democracia e contribui de certa forma para acelerar a derrota da sabedoria convencional que tanto tem atrapalhado a percepção real da nossa economia e fornecer abertura para a adopção de medidas adequadas para o desenvolvimento do país.

Economia e pensamento crítico

A informação e a incerteza sempre estiveram na origem de todas as grandes transformações que a sociedade passou ao longo do tempo. Desde os primórdios da humanidade que o homem preocupa em entender e prever os fenómenos do mundo que o rodeia.

Dada a limitação de técnicas e métodos de alcançar a verdade e eliminar a incerteza recorria-se frequentemente a explicações baseadas na religião, mitos, filosofia etc. Apenas recentemente a ciência moderna ofereceu á humanidade um instrumental analítico (método científico) que lhe permite analisar de forma mais objectiva os fenómenos que acontecem na sociedade.

A economia é uma ciência que, embora recente, tem a pretensão de tentar explicar o comportamento do homem na sociedade especificamente, na relação de produção, distribuição e consumo de bens e serviços. Entretanto, dada a complexidade envolvida na analise dos determinantes do comportamento do homem na sociedade esta ciência tem recorrido de diversos pressupostos para tornar a análise factível e susceptível de ser abordada por meio de procedimentos matemáticos.

As críticas tem-se intensificado á medida que resultados teóricos não satisfazem e seus pressupostos metodológicos tem-se tornado cada vez mais excêntricos. Os pressupostos são classificados como irrealistas, sem muita conexão com a realidade e não são poucos os casos em que os procedimentos científicos são simplesmente ignorados.

Um dos principais constrangimentos ao progresso da economia como ciência está relacionado á adoção do positivismo lógico como filosofia, restringindo o objecto de estudo da economia.

A proposta metodológica do realismo critico trouxe grande progresso no debate da metodologia da ciência económica porque não restringe o objecto dessa ciência a factos empíricos, reconhece que a realidade não se esgota nos factos e adopta métodos que visa explicar os mecanismos e leis causadoras do curso efectivo dos eventos, permitindo uma ciência económica mais objectiva. Os progressos verificados na economia, principalmente os contributos recentes da economia experimental e da economia do comportamento tem relaxado vários pressupostos desta ciência e permitido maior maturidade em termos metodológicos.

O progresso da economia enquanto ciência requer a constante revisão dos pressupostos, maior problematização dos factos e evitar a interferência de crenças e valores pessoais (visão de mundo do cientista), e as pressões politicas que empuram para o convencional e ideológico, desviando da orientação científica.

Os desafios que a conjuntura económica e social nos apresenta, impõe uma reflexão e busca de soluções cada vez mais eficientes. Soluções que levam em consideração as especificidades económica e social da nossa sociedade para que efectivamente possam surtir efeitos desejáveis no progresso nacional.

A necessidade de formação de um núcleo de pensamento crítico nacional para debater idéias, promover discussão crítica sobre as alternativas que nos apresentam e escapar da sabedoria convencional é de grande urgência e os desafios que a nossa economia enfrenta actualmente indica que não devenos nos descurar desta necessidade.

É necessário desenvolver o senso crítico nacional e levar a sério a máxima de Amilcar Cabral quanto á necessidade de “pensa ku nós propi kabesa”, valorizando a dúvida, a suspeita das verdades absolutas e a fundamentação científica das críticas.

Este primeiro post dá uma indicação do que se pretende com este blog. Criar um espaço para o debate sobre aspectos da ciência econômica que possa ser relevante para melhor entendimento das especificidades da nossa economia.